sábado, setembro 05, 2009

Envolvente

Já de malinhas feitas, apenas à espera que a S. terminasse de escolher as suas roupinhas para semana de praia em Tróia, lembrei-me:
- O meu Livro!!! Ficou em casa.... E agora? Deitadinha na toalha a absorver os raios solares sem livro .... não dá!
A S. prontamente estende um livro da prateleira e diz-me:
- Leva este, vais gostar!
Eu relutante e ainda fixa no Shantaram que mal tinha iniciado, disse para mim mesma mas nada convencida:
- Lá terá de ser...

Em plena praia a perder de vista, Sol fantástico e para espanto nosso água quente, a S. vira-se para o seu livro e eu que remédio tive senão pegar no livro cedido simpaticamente e li: "A Sombra do Vento" - Carlos Ruiz Zafón. Confesso que não fiquei presa pelas primeiras folhas,  mas sem dar por mim encontrei-me completamente envolvida pelo romance e a querer saber tudo sobre o misterioso Júlian Carax.

Não foi daqueles livros que li sem respirar, sem querer parar um minuto, foi um livro saboreado, degustado, em que cada palavra desvendava mais um bocadinho do enredo da história, mas também significa que me levava para o final, e eu queria que a melodia a que soam as palavras de Zafón não terminassem. Assim, levei o meu tempo para imaginar cada pormenor da história, visualizar e entrar na atmosfera de mistério e romance, e percorrer as ruas de Barcelona juntamente com Daniel, Bea e Fermín.

Mal Terminei já tinha saudades da história e vi-me agarrada ao livro a reler trechos que me fizeram pensar, cheirar, arrepiar, suar, ter medo, vergonha, raiva, e sonhar...

"Levantei-me cedo, devorado pela ansiedade, e comecei a percorrer o quarto como um animal enjaulado. Todos os  meus escrúpulos, os meus receios e temores se desfaziam agora em cinzas, insignificantes. A fadiga, o remorso e o medo venciam-me, mas senti-me incapaz  de permanecer ali, a esconder o rasto das minhas acções. ...Tinha começado a nevar quando saí a porta da rua e o céu desfazia-se em lágrimas preguiçosas de luz que assentavam no bafo e desapareciam. Corri em direcção à Praça Cataluna, deserta. No centro da Praça, solitário erguia-se a silhueta de um velho, ou talvez fosse um anjo desertor, .... Rei do Alvorecer, erguia o olhar ao céu e tentava em vão apanhar flocos de neve com as luvas, rindo-se. Ao passar ao lado dele olhou-me e sorriu com gravidade, como se pudesse ler-me a alma numa olhadela. Tinha os olhos dourados como moedas enfeitiçadas no fundo de um lago.
- Felicidades - pareceu-me ouvi-lo dizer." 
(A Sombra do Vento - 1955; pp. 467)


"- As putas?
- Não. Putas todos o somos, mais tarde ou mais cedo. Eu digo as pessoas de bom coração. e não olhe assim para mim. A mim os casamentos põem-se que nem um pudim flan."
(As águas de Março - 1956; pp. 499)


"O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele."
(Cidade de Sombras - 1954; pp. 241)


A Sombra do Vento 
de Carlos Ruiz Zafón

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